segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O livre arbítrio ou A crônica do homem comum

Sempre sentiu que tinha um grande futuro pela frente. Sempre sentiu suas capacidades superiores. Era aquele que desenhava bem, mas nunca foi o melhor. Aquele que em alguns lugares convenceu com certa musicalidade, mas nunca soube ser bom o bastante. Daí que, muito provavelmente, veio a idéia que ele sempre conservou na cabeça: era capaz de tudo, apenas precisava se dedicar.

As vezes essa auto-estima caía. Como quando tentava aprender a cantar e não conseguia. Mas no fim, sempre aquele pensamento fixo de quem apenas não estava se dedicando o suficiente. 

Mas os anos foram passando.

Pensou que não precisaria nunca entrar numa faculdade. Ora, tocaria guitarra numa banda; seria o escritor mais novo do mundo a obter fortuna; descobriria um portal para uma terra mágica; ou simplesmente esse tempo nunca chegaria. Mas, no fim das contas, teve que escolher uma profissão. Escolheu aquela que mais se identificava. Seria bom naquilo. Aliás, já era. Precisava de alguns retoques, algum conhecimento técnico, e deu.

Depois de um tempo, descobriu que não era o melhor da turma. Provas não querem dizer nada, pensava. O que importava eram suas capacidades, suas referências culturais, que eram as melhores; sabia ouvir música, ler livros, admirar a arte como ninguém. Era o melhor. Só não fazia o melhor. Era questão de dedicação.

E aquela certeza fixa: iria para o exterior. É. Conheceria todo o mundo, exibindo e espalhando talento.

Reprovou em algumas cadeiras, teve dificuldades em outras, passou na sorte em outras. Essas coisas não eram nem um pouco importantes. Importava aquela certeza de ser bem sucedido. Até o fim do curso teria achado a mulher de sua vida, aprendido a cantar, desenhar, desenvolveria pesquisas naquelas matérias que adorava, uns dois idiomas por que não?, sem falar na leitura de todos aqueles livros. Nossa, seria fantástico, seria um poço de conhecimento.

Mas os anos passaram. O curso acabou, nem mestrado veio. Ah, tudo bem, precisava mesmo era de um descanso. Depois iria começar aquela pesquisa. Leria aqueles livros que estavam na estante, e faria sua especialização. Não iria mais para o exterior, amava sua terra, além disso, aprender novos idiomas era uma traição a pátria. Seria professor universitário. Queria estabilidade, coisa bem boa ter certezas e passar vida tranquilo. Sempre soube que tudo seria assim.

domingo, 28 de novembro de 2010

Versinho da contra-mão

O fio que eu fiei não foi o mesmo fio que vocês fiam...
o quero que eu quis não foi o mesmo quero que vocês querem...

O faz que eu fiz não foi o mesmo faz que vocês fazem...
E o vai que eu fui não foi, definitivamente, o mesmo vai que vocês vão.

sábado, 27 de novembro de 2010

Sininho noturno

Borbulha. Bolhinhas cristalinas estouram com sonzinhos poc bem baixinhos. Muita atenção para ouvi-los. Pare, posicione-se confortavelmente, deitado pode ser, posição sensual, e ó, assim é demais, e escute. Delicados são os poczinhos. Um após outro. ...poc...............pocpocpoc.....

.......poc.............poc.........................poc
poc.....................................poc..................................pocpoc........
................poc.......................................poc....poc

- Que tu quer?
- Quero entrar na tua bolha.
- Haha. Bobo. Se tu entrar, estoura. E a gente cai.
- Cai onde?
- Não sei.

E a janela aberta, vento batendo, levando cortina. Poc...poc...
Nossa, o que será que, o que será? O que será que ele pensou quando lhe levaram (poc... poc...)? E, levaram elas também. E depois os gritos. Nossa. E só ele voltando, o olhar, a cara de quem viu tudo acontecer, impotente. Cara. A bolha dele já era. Deixou que as coisas entrassem.

- Eu também tenho bolha?
- Deve ter, ora. Como não teria?
- Mas, todos tem?
- Ninguém vive sem bolha.

Poc...poc cada existência que se perde. Foram entrando, e não pararam. Entrou ela, depois vieram eles, e vieram as coisas, e as coisas sufocando, e ó meu deus! O que fiz da bolha que me destes?

E abaixo de todos eles. Aquele que borbulha (poc...popopopoc), pairando, criando milhões de micro-universos por segundo, existências inseguras e tão frágeis. Mas é só uma questão de ponto de vista e de relações. Dentro de cada bolha o tempo pode ser enorme. Quanto tempo dura minha bolha aos olhos de quem está fora? Que quer me mostrar, ó peixe-azul-flutuante? Pare já de criar bolhas!

Poc...